
A copa do mundo 2026 estreia nesta quinta-feira em estádios dos Estados Unidos, Canadá e México e já evidencia contradições do governo de Donald Trump na condução política do torneio, entre medidas de imigração, relações com a Fifa e o acesso aos ingressos. O presidente americano tornou-se figura central nas semanas que antecedem a abertura, ostentando troféus e recebendo autoridades do futebol mundial, enquanto decisões governamentais geram tensão entre delegações e torcedores. Há relatos de negações de entrada a oficiais e preocupações sobre operações de fiscalização em áreas com grande presença de imigrantes, fatos que ofuscam a contagem regressiva para os primeiros jogos. Ao mesmo tempo, o custo elevado dos ingressos e dúvidas sobre segurança alimentam críticas de que o evento privilegia a arrecadação em detrimento da torcida tradicional.
Trump, agora presidente novamente após vitória histórica que o colocou como o segundo a comandar mandatos não consecutivos, tem usado a visibilidade do torneio como ferramenta política. Ele exibiu uma réplica do troféu no Salão Oval e estreitou contatos com dirigentes da Fifa, buscando posar como anfitrião global de um espetáculo que atrai bilhões. A aproximação com Gianni Infantino colocou a Fifa em posição delicada diante de suas próprias normas de neutralidade, ao mesmo tempo em que acendeu debates sobre influência política em decisões esportivas. Para muitos observadores, a postura do governo americano revela mais conflito do que conciliação num momento em que o torneio deveria ser festa pura.
Controvérsias práticas já marcaram a chegada de delegações: um árbitro somali teve entrada negada, a seleção do Irã teve sua cota de ingressos nos Estados Unidos suspensa e houve relatos de procedimentos de segurança rigorosos para delegações africanas. Autoridades americanas negam que haja perseguição dirigida a torcedores, mas ONGs e representantes das comunidades afetadas expressaram apreensão sobre batidas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) em dias de jogos. Essas tensões coincidem com advertências de que torcedores sul-americanos e africanos, fundamentais para a atmosfera dos estádios, podem se sentir indesejados. O risco é que parte da energia popular que move o futebol seja substituída por receio e polarização política.
O tema dos ingressos elevadíssimos também ganhou destaque: bilhetes com valores proibitivos afastaram grande parcela da torcida e geraram crítica generalizada sobre a natureza comercial do evento. O debate sobre preço é, para muitos, um reflexo das desigualdades econômicas que marcam o futebol moderno, em que a experiência nos estádios se torna inacessível à classe trabalhadora que sempre foi o coração do esporte. Autoridades da Fifa e organizadores americanos afirmam esforços para garantir público diverso, mas a percepção de elitização persiste. Esse contraste entre espetáculo e exclusão reforça a imagem de uma Copa cada vez mais corporativa.
Bajulação de Infantino a Trump e riscos políticos
A proximidade pública entre Gianni Infantino e Donald Trump levantou questões sobre os limites da diplomacia esportiva. Pesquisadores e analistas apontam que a Fifa pode ter buscado garantias políticas para o bom andamento do evento, mas a associação próxima a um líder polarizador também traz custos reputacionais. Alexander Cooley, pesquisador sênior não residente de assuntos globais, comentou que a organização corre o risco de vincular o torneio a uma figura cuja popularidade internacional está em disputa. Em termos práticos, a Fifa tentava assegurar infraestrutura e apoio logístico; politicamente, contudo, a imagem da entidade acabou entrelaçada a decisões controversas do governo anfitrião.
O futebol costuma vencer
Apesar das tensões, a história mostra que, em campo, o jogo muitas vezes supera a política. Torcedores brasileiros — inclusive a torcida do Mengão, do Gigante da Colina, do Tricolor das Laranjeiras e do Glorioso — vão acompanhar o torneio com paixão, seja em bares, no Maracanã, em São Januário ou no Estádio Nilton Santos. No calendário nacional, a Copa coincide com disputas como o Brasileirão, a Copa do Brasil e a Libertadores, e isso também reconfigura a rotina dos clubes e das torcidas pelo país. Momentos de brilho individual ou coletivo tendem a deslocar o foco das manchetes políticas para a magia do jogo, como já ocorreu em edições anteriores do Mundial. Por mais que a política busque um pedestal, a bola segue decidindo narrativas e emoções.
Em declarações públicas ao longo do ano, dirigentes da Fifa sublinharam a capacidade do futebol de unir e de dissipar tensões quando a competição começar. Resta ver, nos dias e semanas que vêm, se a promessa se confirma nas arquibancadas e nas ruas ou se as contradições políticas continuarão a moldar a percepção do torneio. Para a torcida brasileira, o importante é que a Copa entregue momentos de futebol que façam esquecer, pelo menos por noventa minutos, a geopolítica que a cerca.
“Quando a coisa engrenou e a mágica aconteceu, praticamente não tivemos incidentes”, disse recentemente o presidente da Fifa ao recordar edições passadas, reforçando a ideia de que o futebol tem força própria para rivalizar com qualquer narrativa externa. Agora é bola em jogo: que venham os dribles, os gols e a festa que só a Copa do Mundo sabe provocar.



