
O ex-zagueiro Vicente Lucas, defensor do Belenenses, morreu na terça-feira, 14 de abril de 2026, aos 90 anos. Nascido em Lourenço Marques (hoje Maputo), o homem que virou referência no futebol português deixou um legado de marcação fina e presença de capitão. A notícia caiu como um choque entre os apaixonados pela história do futebol europeu, recordando feitos que atravessam gerações. Vicente era visto como um pilar do clube lisboeta e uma figura respeitada nas seleções de sua época.
Formado inicialmente como atacante, Vicente chegou ao Belenenses em 1954, clube onde também jogava o irmão Matateu, atacante do Belenenses na época. A chegada aos azuis do Restelo marcou o início de uma trajetória de 12 temporadas e 284 jogos oficiais pelo clube. Com boa leitura de jogo e técnica, transformou-se de avançado em um zagueiro elegante e eficiente. Foi com essa mudança que ganhou a braçadeira e a admiração da torcida.
O técnico chileno Fernando Riera foi decisivo ao reposicionar Vicente mais atrás, valorizando sua capacidade de antecipação e passe. A imprensa francesa elogiou seu equilíbrio entre marcação dura e futebol de qualidade, e o zagueiro logo virou referência na defesa do Belenenses. Nas décadas seguintes consolidou-se como capitão e homem de confiança dentro de campo. Seu estilo atraía tanto elogios quanto atenção adversária.
Duelo com Pelé e a Copa do Mundo de 1966
Vicente enfrentou Edson Arantes do Nascimento, o atacante Pelé (Santos na época), em seis ocasiões — uma delas defendendo o Belenenses e as demais pela seleção portuguesa. Em 21 de abril de 1963, no Estádio Nacional, Portugal venceu o Brasil por 1 a 0; foi aí que a marcação de Vicente sobre o Rei ganhou alcance nacional, com relatos de Pelé elogiando a marcação ao final. A receita do zagueiro, segundo registros da época, era manter os olhos na bola e antecipar o movimento, uma lição de posicionamento e leitura do adversário. Esses confrontos entraram para a memória como confrontos de respeito entre dois enormes nomes do futebol.
No Mundial da Inglaterra, em 1966, Portugal teve partida histórica no Goodison Park, em Liverpool, vencendo o Brasil por 3 a 1 — duelo em que Vicente teve papel fundamental na contenção dos avanços brasileiros. A seleção portuguesa contava com Eusébio, atacante (Benfica na época), como grande referência ofensiva, e alcançou o impressionante terceiro lugar naquele torneio. Para Vicente, a campanha de 1966 foi um dos pontos máximos da carreira internacional, confirmando sua importância para a seleção. As partidas na Copa reforçaram a imagem de um defensor tático e determinado.
O fim precoce da carreira chegou em 1967, após um acidente automobilístico próximo ao Estádio do Restelo que tirou a visão do olho direito de Vicente, obrigando-o a pendurar as chuteiras. Pela seleção portuguesa disputou 20 partidas (19 como titular), com um aproveitamento que contabiliza 10 vitórias, 2 empates e 8 derrotas. No Belenenses somou 284 confrontos oficiais ao longo de 12 temporadas, sempre lembrado como um símbolo do clube. A Federação Portuguesa de Futebol divulgou nota de pesar, destacando o contributo e o legado deixados pelo jogador.
Legado e lembrança
Vicente Lucas parte como um exemplo de zagueiro que unia técnica e coragem, capaz de bater de frente com craques do porte de Pelé sem perder compostura. Sua história atravessa do Restelo aos palcos internacionais, mantendo-se viva em livros, arquivos e na memória dos que viram aqueles duelos. No balanço final, fica a imagem de um capitão que ajudou a elevar o nome do Belenenses e a projetar Portugal no futebol mundial. O futebol perde um nome histórico, mas as lembranças e as lições táticas permanecem.



