racismo no vasco existiu? Sim: deixou marcas profundas no clube e na cidade.
O que aconteceu em 1923 e por que isso mudou o futebol carioca?
Em 1923 o Vasco já era famoso nas regatas, mas o que fez barulho mesmo foi o time de futebol que surgiu com jogadores de origem humilde e muitos negros — remadores e operários que migraram para a bola. O Vasco conquistou o Campeonato Carioca da primeira divisão naquele ciclo e, em seguida, enfrentou resistência das equipes ditas da elite. Não foi apenas um jogo: foi um ataque ao racismo estrutural que predominava nas associações esportivas da época, que preferiam times de escola de colégio e da alta sociedade.
O episódio mais prático foi a recusa de dirigentes de outras agremiações em aceitar jogadores considerados “de origem inferior”. O Vasco respondeu mantendo seu elenco — e ganhou. Essa postura transformou o clube em um símbolo de inclusão popular e racial no Rio. A sequência de vitórias e a permanência desses atletas dentro do clube provaram que talento não é questão de classe social ou cor.
Quem foram os protagonistas dessa história dentro do clube?
Vários atletas e dirigentes aparecem nas memórias orais e nos recortes de jornal da época. Um nome que sempre aparece nas listas de protagonistas é Fausto dos Santos, meio-campista que se destacou no Vasco nos anos 1920 e 1930 e chegou a integrar seleções nacionais. Mas não foi só ele: estivemos falando de trabalhadores, marinheiros e operários que vestiram a camisa preto e branca e mudaram o status quo do futebol carioca.
Do lado institucional, dirigentes vascaínos que mantiveram a política de inclusão tiveram papel central — e arriscaram afastamento das ligas se tivessem cedido às pressões. A consequência foi visível: a presença de jogadores negros e de classes populares se espalhou por outros clubes e mudou a cara do futebol no Rio.
Existe um documento ou cobrança histórica que simboliza essa resistência?
Sim. Nos arquivos de jornais e no acervo do próprio clube há cartas, ofícios e recortes que mostram as trocas entre dirigentes. O documento mais citado por historiadores e por torcedores é uma resposta firme do Vasco a pressões para excluir jogadores — texto que os torcedores chamam de “resposta histórica”. Não é um item único lustrado em museu; é um conjunto de atitudes registradas em jornais como o Correio da Manhã e O Globo da época. Essas fontes primárias mostram como a defesa da presença dos atletas não foi retórica, foi prática.
Como o Estádio São Januário aparece nessa narrativa?
São Januário é onde a história fica visível: o prédio social, os troféus, as fotos antigas nas paredes, a arquibancada cantada pelos mais velhos. O estádio fica no bairro de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio, e é mais do que gramado — é centro de memória. Visitar o entorno na semana de jogo é ver moradores, vendedores ambulantes e torcedores conversando sobre partidas que mudaram vidas.
Prática útil: pegue a SuperVia até a estação São Cristóvão e caminhe entre 10 e 15 minutos até a entrada principal de São Januário — é a forma mais direta e usada por torcedores locais. Em dias de Campeonato Carioca (que acontece geralmente entre janeiro e abril), chegue pelo menos uma hora antes; nos clássicos a antecedência precisa ser maior.

Que confrontos e episódios de racismo ficaram marcados nos anos seguintes?
Houveram vários episódios em que racismo e preconceito apareceram nas arquibancadas e na imprensa, como provocações entre clubes e tentativas de marginalizar jogadores por sua origem. A diferença para outras histórias é que o Vasco deu respostas públicas e manteve muitos desses jogadores em campo. A memória oral de torcedores mais velhos fala de entradas polêmicas, provocações e até recusa de árbitros e dirigentes de árbitros a escalar juízes sensíveis à situação — uma disputa que se desenrolou nas páginas dos jornais e nas conversas de botequim.
Como o clube e a torcida reagiram, de forma prática, a esses ataques?
O Vasco reagiu de dois jeitos concretos: salvaguardando contratos e mantendo os atletas em campo; e ocupando o espaço público — ou seja, usando as vitórias e a presença nas competições para normalizar a presença de jogadores negros no time titular. Do ponto de vista da torcida, a resposta era a música: cantos que celebravam esses jogadores e painéis nas arquibancadas. Hoje quem vai a São Januário ainda percebe murais e fotos antigas no hall social que lembram aquelas campanhas.
Que impacto isso teve fora do futebol, na cidade do Rio?
O efeito foi gradual e amplo: a aceitação de jogadores negros em clubes grandes ajudou a esfriar narrativas elitistas que tentavam manter o futebol como esporte de colégio. Nas periferias e nos bairros históricos como o próprio São Cristóvão, Madureira e bairros da Zona Norte, o Vasco virou referência — não só por títulos, mas por ser o clube que permitiu acesso ao reconhecimento social através do esporte. Para a população negra e operária do Rio, o Vasco significou uma via de mobilidade simbólica e, em alguns casos, econômica.
Onde posso ver documentos, fotos ou objetos ligados a essa história no Rio?
O primeiro lugar óbvio é o próprio São Januário: o salão social costuma guardar troféus, fotos e painéis. Para consultas mais acadêmicas vale procurar acervos de jornais no Rio — a Hemeroteca da Biblioteca Nacional tem recortes de jornais antigos que cobrem o futebol carioca dos anos 1910–30. Outra rota concreta: conversar com pesquisadores que trabalham com história do futebol na UFRJ ou na UERJ; muitos têm coleções e referências de artigos. Se der, vá em dias de exposição ou sessões comemorativas em São Januário — o clube costuma abrir o museu e o salão em datas comemorativas e jogos especiais.
Quais são os momentos mais controversos do século XX envolvendo o Vasco e racismo?
Os anos 1920 e 1930 são os mais citados: o acesso aos campeonatos, as reações da elite e a imprensa sensacionalista que tentou desqualificar atletas. Mais tarde, no pós-guerra, a profissionalização do futebol trouxe outros conflitos: rivalidades viraram palco de provocações raciais nas arquibancadas e, eventualmente, punições. É difícil apontar um único jogo como marco; o que existe é uma sequência de episódios que mostram um embate entre a lógica inclusiva que o Vasco praticava e práticas excludentes em outros setores do futebol.
Houve ações formais anti-racismo no Vasco nas últimas décadas?
Sim, mas com nuances. Assim como outros clubes grandes do Rio, o Vasco participou de campanhas públicas anti-racismo e apoiou projetos sociais em comunidades onde atua. O clube costuma se envolver em ações locais: escolinhas, escolinhas de base no entorno de São Cristóvão e iniciativas sociais que misturam formação esportiva e cidadã. Se você quiser participar ou conhecer esses projetos, pesquise as iniciativas sociais do clube no período de pré-temporada (normalmente entre dezembro e fevereiro) — é quando muitas escolinhas reúnem inscrições e atividades abertas à comunidade.
Quais são os limites do legado vascaíno nessa luta?
O legado é grande porque abriu portas, mas ele não elimina o racismo estrutural. Há episódios recentes de abusos raciais nas arquibancadas no futebol carioca que mostram que a batalha permanece. O Vasco tem história de resistência, mas isso não significa que o clube esteja imune a falhas institucionais — membros e torcedores individuais podem reproduzir preconceito. A diferença histórica é que a experiência do clube facilita que militantes e torcedores transformem ofensa em mobilização.
Que arquivos, livros ou fontes eu preciso ler se quiser entender essa história a fundo?
Procure por estudos de história do futebol carioca — há teses e artigos que analisam o Vasco da década de 1920 em diante. Em bibliotecas universitárias do Rio você encontra monografias que tratam do clube como fenômeno social. Para um contato mais imediato, vasculhe as edições antigas de jornais locais na Hemeroteca; presentes nessas páginas estão os recortes que contam como dirigentes e imprensa reagiram à presença de atletas negros nos gramados. Outro caminho prático: participar de rodas de leitura e debates organizados por coletivos de torcedores vascaínos que promovem encontro com historiadores.
Como vivenciar isso pessoalmente em um jogo sem cair em armadilhas de turista?
Vá como vascaíno por um dia. Compre ingresso no setor da torcida organizada se quiser sentir a vibração, mas faça isso com antecedência pelo site oficial do clube ou nos pontos de venda autorizados — é a forma mais segura e legítima. Chegue cedo e caminhe pelo entorno de São Januário: a rua é tomada por vendedores de bandeiras e por gente que conta histórias; pergunte, escute. Evite confundir celebração com romantização: peça para ver as fotos antigas no salão social, converse com funcionários que trabalham há anos no clube e pergunte sobre datas de exposições.
Dica prática de quem frequenta: durante os dias de jogo leve sempre dinheiro em cédulas pequenas para comprar comida com ambulantes (os caixas das bilheterias costumam demorar nos clássicos). Se depender do transporte público, use a SuperVia até São Cristóvão e, se estiver vindo da Zona Sul, combine trem + ônibus; o trajeto de táxi do Centro até São Cristóvão leva cerca de 20–30 minutos dependendo do trânsito.
Que canções, slogans ou formas de celebração ajudam a lembrar essa luta dentro da torcida?
Os cantos que exaltam a história do clube e mencionam suas origens populares são comuns nas arquibancadas. Faixas que lembram as conquistas antigas e painéis que fazem referência aos jogadores operários aparecem com frequência. Esses elementos culturais da torcida mantêm viva a narrativa de resistência — e, quando montados nos arcos de torcida, funcionam como lembretes públicos dessa herança.
O que a cidade do Rio (instituições, escolas, pesquisadores) aprendeu com a história do Vasco?
Uma das lições cristalinas é que o futebol foi ferramenta de ascensão social e de batalha contra o preconceito, mas ainda precisa de apoio institucional. Em programas escolares que tratam história local, a trajetória do Vasco costuma aparecer como exemplo de mobilidade e disputa simbólica. Pesquisadores do Rio usam o clube como caso para discutir raça, trabalho e identidade urbana. A cidade, no seu conjunto, reconhece que as narrativas do futebol cruzam a história das favelas, dos subúrbios e do centro — e o Vasco é um fio que conecta essas áreas.
Existe algo que você pode ver hoje que prova essa história?
Sim: as fotos e troféus em São Januário, as faixas antigas preservadas e os recortes de jornal guardados no acervo do clube. Fora do estádio, presto atenção nos murais pelo bairro de São Cristóvão e em peças que torcedores mantêm em casas e bares próximos ao estádio: imagens antigas de times com jogadores negros em destaque contam essa história sem precisar de legendas.
Final prático e específico — uma sugestão concreta
Se quiser sentir o peso histórico pessoalmente, escolha um jogo do Campeonato Carioca entre janeiro e abril, vá de SuperVia até a estação São Cristóvão, caminhe 10–15 minutos até São Januário e tente entrar no salão social para ver as fotos antigas — isso não costuma ser impossível em dia de jogo e dá uma impressão direta do porquê o clube ocupa esse papel na luta antirracista no Rio. Depois, sente em um bar próximo à estação e peça para um vascaíno mais velho contar a história do clube — narrativa oral é onde a história muitas vezes pulsa com mais verdade.




