RD Congo volta à Copa do Mundo após 52 anos; congoleses celebram em São Paulo

Torcedores congolenses celebrando na Casa Marx em frente ao metrô Vila Madalena, São Paulo
Imagem: Divulgação / Reprodução

Torcida celebra retorno histórico

RD Congo copa do mundo: torcedores congolenses reunidos em São Paulo comemoraram, na tarde de 17 de junho, a volta da República Democrática do Congo à Copa do Mundo após 52 anos. O encontro ocorreu na Casa Marx, livraria e café em frente ao metrô Vila Madalena, onde cerca de 60 pessoas — muitas imigrantes — acompanharam o empate contra Portugal pela primeira rodada do grupo. O gol de Yoane Wissa, completado após cruzamento de Arthur Masuaku, provocou cânticos e emoção na plateia. O clima foi de festa e memória: para boa parte dos presentes, essa é a primeira Copa que assistem a seleção congolesa disputar ao vivo.

Vozes e cantos da comunidade

A música da torcida, o canto de guerra “Lelo Lelo Ibeba”, ecoou dentro da Casa Marx e chamou atenção de quem passava pela região. Grevisse Mulamba, de 38 anos, andava com a bandeira do país e dizia que a participação na Copa representa um fechamento de ciclo para famílias que acompanharam gerações inteiras. Coordenadores do coletivo Voz do Congo se organizaram com o espaço para promover a transmissão, e voluntários relataram que a comemoração serviu também como alívio diante das dificuldades que muitos enfrentam fora de casa. A presença da comunidade no evento deixou claro que o futebol virou momento de reafirmação cultural e solidariedade entre imigrantes.

Marcelo Pablito, um dos responsáveis pela Casa Marx, lembrou que o local já havia promovido outras celebrações de seleções africanas, como a partida do Senegal contra a França no dia anterior. Para ele, receber esses eventos é uma forma de dar visibilidade a quem vive em situação de vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, compartilhar alegria. Entre as conversas, surgiram relatos sobre perseguições e precarização de vida que atingem alguns imigrantes, o que torna as comemorações futebolísticas também um ato de resistência e afeto coletivo. A atmosfera misturava festa e lembranças das dificuldades vividas por muitos presentes.

O jogo e os protagonistas

No gramado, Arthur Masuaku, lateral-esquerdo da seleção da República Democrática do Congo, foi quem cruzou para Yoane Wissa, atacante da seleção da RD Congo, cabecear e abrir o placar contra Portugal. Cédric Bakambu, atacante da seleção da RD Congo e referência ofensiva do time, apareceu como uma opção de contra-ataque e foi importante na movimentação dos contra-ataques da equipe. A atuação dos congolenses mostrou uma mistura de aplicação tática e jogadores experientes, que não se limitaram apenas à força física tradicionalmente associada a seleções africanas. O empate deixou o grupo aberto, mas a torcida já comemorava o feito histórico fora do Brasil.

Contexto esportivo e histórico

A República Democrática do Congo não disputava uma Copa do Mundo desde 1974, e o retorno em 2026 (edição realizada nos Estados Unidos, entre outros países anfitriões) representa um marco para o futebol do país. Nas últimas edições da Taça das Nações Africanas, a seleção chegou às semifinais, mostrando evolução técnica e consistência competitiva no continente. Nas eliminatórias, a equipe passou por rivais tradicionais africanos e garantiu a vaga após a repescagem internacional, superando obstáculos que em edições passadas a impediram de avançar. Historicamente, o país ficou perto de chegar ao Mundial em 2018 — quando terminou atrás da Tunísia — e sofreu eliminação nas fases decisivas em 2022, o que torna a classificação atual ainda mais comemorada.

Além do aspecto esportivo, a classificação e as celebrações em São Paulo trazem à tona temas caros à comunidade congolesa, como a situação de violência em áreas do leste do país e o pedido de reconhecimento internacional sobre abusos e deslocamentos forçados. Eventos como o Genocost, mencionados por representantes da comunidade, e atos de memória permeiam a narrativa dos torcedores, que misturam alegria futebolística com uma consciência política e social. Para muitos presentes, a Copa é uma chance de colocar a história do país no mapa mundial, não só pelos resultados no campo, mas também pela visibilidade que a torcida pode gerar para causas humanitárias.

Repercussão em São Paulo

A Casa Marx, localizada na Zona Oeste, virou ponto de encontro para congoleses e simpatizantes, reafirmando o papel dos espaços culturais como centro de sociabilidade entre imigrantes. A celebração reunida ali teve caráter familiar e comunitário: crianças, idosos e jovens dividiram o mesmo espaço de alegria. Para os organizadores, a expectativa é manter eventos similares durante o restante da competição, como forma de fortalecer laços e dar suporte às famílias. No fim, a imagem que ficou foi a de uma torcida que fez barulho, cantou alto e celebrou um momento que entrou para a história do futebol congolesa e das vidas ali presentes.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *