
Na sexta-feira (24), pela 31ª rodada da Bundesliga, RB Leipzig e Union Berlin se enfrentam em um duelo que ganhou holofotes por um motivo pouco visto no futebol masculino: os dois clubes têm protagonistas mulheres em cargos de destaque. Tatjiana Haenni assumiu a cadeira de CEO do RB Leipzig em 1º de janeiro e virou um marco ao ser a primeira mulher a ocupar o posto em um clube da primeira divisão alemã. Do outro lado, Marie-Louise Eta, de 34 anos, estreou como treinadora do Union Berlin, assumindo um papel inédito na elite masculina do país. A partida, marcada para a Red Bull Arena, carrega além do resultado a simbologia de uma mudança no cenário do futebol alemão. Para quem acompanha de perto, é um teste à capacidade dessas profissionais de transformar curiosidade em respeito pelo trabalho.
Haenni tem repetido que a atenção deveria recair sobre a competência e não sobre a novidade, e ela ressalta que o trabalho é o que pauta o legado de uma diretora. Em entrevista a jornalistas de vários países, a dirigente lembrou que formação e experiência pesam mais do que o gênero quando um clube decide seu comando. “Já era tempo de uma mulher assumir um time masculino”, afirmou, destacando que o clube confiou no plano e na qualificação apresentados por ela. O recado de Haenni é claro: a narrativa precisa mudar do espanto para a avaliação técnica. É uma mensagem que tem eco além da Alemanha, alcançando debates sobre gestão no futebol em diferentes mercados.
É engraçado que essas perguntas nunca são feitas quando um homem assume uma seleção feminina, por exemplo, o que acontece com alguma frequência. Nesses casos não há surpresa. ‘Ahh, que ótimo, esse técnico vai ajudar as mulheres’. Vamos ver como ela vai se sair. Tenho certeza que ela será a primeira, mas não a última
RB Leipzig busca voltar à Champions League
O RB Leipzig aparece na terceira posição, com 59 pontos, ocupando uma vaga que leva à próxima edição da Champions League. Voltar às competições continentais é objetivo declarado da diretoria depois de uma temporada fora dos torneios europeus. Haenni, mesmo recém-chegada à administração, tem dito que a filosofia do clube passa por trabalhar com jogadores jovens e talentosos, mantendo a identidade esportiva. No dia a dia, isso significa alinhar a gestão a um planejamento que privilegia formação e ambição, uma receita já testada em temporadas anteriores. A Red Bull Arena tende a ser o palco onde esse projeto será mostrado na prática.
O Union Berlin, por sua vez, vive momento mais turbulento: ocupa a 11ª posição na tabela e está a seis pontos da zona de rebaixamento, um cenário que aumenta a pressão sobre a equipe da capital. Na estreia de Marie-Louise Eta, o time foi derrotado em casa pelo Wolfsburg por 2 a 1, e críticas surgiram antes mesmo de ela completar a primeira partida. O clube chegou a repudiar publicamente ataques sexistas que a treinadora recebeu nas redes, uma reação institucional que procura blindar o trabalho. Para Eta, o desafio imediato é ganhar confiança dentro do elenco e entre a torcida, seja na Stadion An der Alten Försterei (a Alte Försterei) ou longe dela. O futebol, no fim das contas, vai cobrar resultados, e é nisso que o comando técnico e a diretoria terão de sustentar a narrativa.
O movimento em torno de Haenni e Eta abre espaço para um debate mais amplo sobre diversidade no comando do futebol masculino, e não é apenas pauta de imprensa: é realidade operacional em clubes que disputam títulos e vagas europeias. A Bundesliga, que segue com partidas decisivas até o fim da temporada, funciona como laboratório para saber se a mudança cultural acompanhará o desempenho esportivo. Do ponto de vista técnico, a resposta virá em resultados; do ponto de vista social, na normalização do papel feminino em cargos de alta responsabilidade. Para nós, que vibramos no Maracanã, em São Januário e no Nilton Santos, a lição é clara: o futebol pertence a quem trabalha, independentemente da camisa ou do gênero. Amanhã, na Red Bull Arena, a bola rola com expectativas que vão muito além do placar.



