
Kosovo chega ao momento mais decisivo da sua curta história no futebol: um jogo contra a Turquia nesta terça-feira (31) que pode garantir ao país a primeira participação numa Copa do Mundo. A sensação é de cidade de várzea virando palco de sonho, e cada lance revive décadas de luta. Para quem viveu os tempos em que partidas eram clandestinas, a chance de ir ao Mundial na América do Norte, em junho, tem sabor de consagração. A torcida está em festa e o país inteiro acompanha com expectativa similar ao de uma final estadual no Rio.
De partidas escondidas à porta do Mundial
Nos anos 1990, sob domínio sérvio, os jogos aconteciam às escondidas; depois das partidas, os atletas se lavavam em riachos ou com neve derretida para não chamar atenção. A independência proclamada em 2008 e o reconhecimento internacional tardio fizeram o caminho ser longo: Kosovo só foi autorizado a entrar no futebol mundial em 2016. Hoje a seleção vem embaladíssima, depois da vitória eletrizante por 4 a 3 sobre a Eslováquia na semana passada. O vencedor do confronto com a Turquia garante vaga direta no torneio que começa em junho na América do Norte.
Com cerca de 1,6 milhão de habitantes, o país teve um início difícil: nas eliminatórias para a Copa de 2018 perdeu nove dos dez jogos, mas a chamada de jogadores da diáspora virou a chave. Muitos garotos formados na Europa retornaram para vestir a camisa e levaram Kosovo a superar seleções como Suécia e Eslovênia rumo à repescagem. Cada vitória tem peso histórico numa nação marcada pela guerra e resistência. A campanha transmite orgulho e mostra que futebol também é política, memória e identidade.
O que está em jogo
Para Eroll Salihu, ex-secretário-geral da federação kosovar, a classificação significaria mais do que um feito esportivo: é, nas palavras dele, o sonho de gerações que jogaram em campos improvisados. Samir Ujkani, ex-capitão e goleiro, atualmente sem clube, lembra que representar Kosovo é uma forma de retribuição a quem ficou para trás; ele saiu ainda criança para viver na Bélgica. Histórias como essas dão corpo à narrativa de superação que envolve a seleção. Dentro de campo, a equipe responde com personalidade e gols, e fora dele a torcida transforma ruas em arquibancadas.
Paixão nacional e expectativa
A expectativa tomou conta do país: o estádio nacional, com capacidade para 12,5 mil pessoas, esgotou em minutos e no mercado paralelo os ingressos chegam a custar até 20 vezes mais. Para quem não entrar, praças públicas e telões serão pontos de celebração e tensão, como grandes peladas de domingo. O governo colocou um incentivo e prometeu um bônus de 1 milhão de euros (aproximadamente R$ 6 milhões) aos jogadores em caso de vitória, cifra que acende ainda mais o desejo de conquista. Se Kosovo confirmar a vaga, o impacto vai muito além do futebol — será um capítulo importante na reconstrução da imagem do país.



