Campeões de 2006 apontam falhas na formação e alertam para crise do futebol italiano

Campeões de 2006 apontam crise estrutural no futebol italiano | CNN Brasil
Imagem: Divulgação / Reprodução

Massimo Oddo (ex-lateral e atualmente técnico da equipe reserva do Milan) e Marco Amelia (ex-goleiro, aposentado) soaram o alerta: a incapacidade de desenvolver e confiar em jovens jogadores está no centro de um declínio que vem de décadas no futebol italiano. Em entrevistas à Reuters, os campeões da Copa do Mundo de 2006 disseram que a vitória daquele ano acabou mascarando problemas estruturais que persistem até hoje. A crítica recai sobre a formação nas bases, a cultura de resultados imediatos e o baixo investimento no planejamento a longo prazo. Foi um discurso direto, na cara dura, daqueles que já passaram pelo campo e viram a casa desabar aos poucos.

O alerta chega em hora quente: a seleção italiana encara mais um playoff e corre o risco de ficar fora de uma terceira Copa do Mundo consecutiva. Nos últimos Mundiais, a Itália foi eliminada ainda na fase de grupos e, nas últimas campanhas, não conseguiu a classificação automática, caindo em decisões nos playoffs. Amelia lembrou que esses fracassos não são episódios isolados, mas sinais de um problema sistêmico que envolve clubes, federação e formato de trabalho nas categorias de base. A percepção é que o brilho de eventos pontuais não vem acompanhado de mudança real na base do jogo.

Entre os temas mais cobiçados da conversa estão a confiança em atletas jovens e a presença massiva de estrangeiros na Serie A, que, segundo os ex-campeões, reduz espaço para talentos locais. Oddo enfatizou a necessidade de aceitar que alguns projetos de base vão falhar, mas que é preciso arriscar e investir para colher no futuro. O problema não é só técnico: passa pela economia dos clubes, pela prioridade de resultados imediatos e pela rotatividade de treinadores nas divisões de formação. Para eles, a solução exige coragem institucional e planejamento, algo que falta hoje.

Falsa sensação de progresso

Oddo afirmou ainda que a conquista da Eurocopa 2020 gerou uma falsa sensação de que a máquina havia sido consertada, quando, na verdade, as bases continuam frágeis. Ele citou nomes da defesa que sustentaram vitórias no passado — Alessandro Nesta (zagueiro, aposentado), Marco Materazzi (zagueiro, aposentado) e Gianluca Zambrotta (lateral, aposentado) — e lembrou que a Itália já não produz mais, com a mesma constância, jogadores daquele calibre. Também mencionou Giorgio Chiellini (zagueiro, aposentado) e Leonardo Bonucci (zagueiro, aposentado) como referências que, para ele, marcaram o fim de uma geração de defensores de alto nível. A avaliação é que a ilha de solidez defensiva sobre a qual a Itália se apoiava está se estreitando.

Na visão de Oddo, a resposta passa por formar técnicos melhores e mais preparados para atuar como educadores dos jovens, priorizando o desenvolvimento individual além do resultado imediato. O treinador criticou a pressão por desempenho nas categorias de base, onde profissionais são demitidos se não apresentam resultados rápidos, e disse que isso encurta a visão dos clubes. Amelia concordou e acrescentou que a abundância de gols sofridos nas eliminatórias mostra a necessidade de equilíbrio entre defesa consistente e eficiência ofensiva. Ambos defendem mudanças de mentalidade que enfoquem processos e não só placares.

O contexto competitivo é urgente: nesta quinta-feira, 26 de março de 2026, a Itália joga em Bérgamo contra a Irlanda do Norte pela semifinal do playoff; o vencedor pegará País de Gales ou Bósnia e Herzegovina na vaga para a Copa do Mundo. Oddo e Amelia lembram que uma nova ausência no Mundial teria impacto econômico e emocional, abalando patrocinadores, mídia e a própria relação com a torcida. Mesmo assim, os dois enfatizam que o foco não pode ser apenas evitar a catástrofe imediata; é preciso aproveitar a pressão como alerta para reformular a base do futebol italiano. É um chamado para recuperar investimento, paciência e visão de futuro, sem atalhos.

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