Torcedores pedem proteção a jogadoras iranianas após derrota na Copa da Ásia

Copa da Ásia: torcedores pedem proteção para atletas iranianas após derrota | CNN Brasil
Imagem: Divulgação / Reprodução

A cena foi de aperto no peito: depois da derrota por 0-2 para as Filipinas na Copa da Ásia Feminina, torcedores se amontoaram ao redor do ônibus da seleção e gritavam “salvem nossas meninas” enquanto o veículo deixava o local no domingo (8). A partida que eliminou a equipe virou pano de fundo para um apelo maior, de segurança e proteção, diante do temor de represálias no retorno ao Irã. A seleção estava na Austrália há cerca de uma semana para o torneio e, além do resultado em campo, carrega um ingrediente político que aumentou a tensão em volta do grupo.

Pedido de socorro e sinais visíveis

Hadi Karimi, defensor dos direitos humanos e membro da comunidade iraniana em Queensland, contou que apoiadores viram ao menos três jogadoras fazendo o sinal internacional de socorro com as mãos dentro do ônibus. Segundo ele, houve insistência para que a polícia australiana agisse e garantisse que as atletas tivessem acesso a redes de apoio. O gesto de SOS acendeu um alerta entre ativistas e organizações de direitos humanos, que temem consequências ao retorno das atletas ao país de origem. A indefinição sobre o que ocorrerá a seguir deixou a situação ainda mais delicada.

Antes do torneio, a equipe chamou atenção ao permanecer em silêncio durante o hino nacional iraniano na estreia, gesto que foi recebido com críticas por setores linha-dura no Irã. Fontes relataram que, depois da repercussão, as jogadoras foram pressionadas a cantar o hino e, em partidas subsequentes, chegaram a fazer uma saudação militar. Esse vai e vem aumentou o risco percebido por quem acompanha o caso fora do Irã e motivou pedidos de proteção internacional.

Reza Pahlavi, filho do xá deposto, também pediu publicamente que o governo australiano garanta a segurança das atletas, alertando para “graves consequências” caso elas retornem ao Irã. O apelo do exilado nas redes sociais somou-se às vozes de ativistas que pedem que autoridades e entidades do futebol atuem para assegurar proteção imediata. Enquanto isso, a federação iraniana e outros órgãos internacionais foram contatados por veículos e organizações, mas detalhes oficiais sobre escolta ou pedidos de asilo ainda não foram tornados públicos.

Desafio e depois silêncio

A presença da seleção iraniana na Austrália ocorreu em meio a um contexto internacional tenso, com o conflito envolvendo EUA e Israel e preocupações sobre a segurança de cidadãos iranianos no exterior. Além das questões políticas, há dificuldades práticas: o fechamento de espaços aéreos e o risco de ataques tornam deslocamentos mais complicados e alimentam temores de que as atletas possam ser levadas para um terceiro país antes de qualquer retorno controlado ao Oriente Médio. Organizações de apoio tentaram contato com as jogadoras, mas relataram dificuldades de acesso durante a estadia.

Craig Foster, ex-jogador internacional australiano e defensor dos direitos humanos, afirmou que a Confederação Asiática de Futebol (AFC) tem responsabilidade pelo bem-estar do grupo após a eliminação. Ele destacou que nenhum grupo de atletas deveria ser mantido refém por sua própria federação ou ser isolado de redes de apoio externas. Beau Busch, presidente da FIFPRO Ásia/Oceania, também informou que não conseguiu contatar membros da seleção iraniana, descrevendo a situação como “incrivelmente preocupante” e reforçando a necessidade de medidas que garantam segurança às jogadoras.

A ministra das Relações Exteriores da Austrália, Penny Wong, evitou comentar detalhes sobre contato direto com a equipe, mas disse que o país se solidariza com o povo iraniano, em especial com as mulheres e meninas. A postura oficial reforça a delicadeza política do caso e a cautela de autoridades ao tratar de possíveis pedidos de proteção. Enquanto as instituições debatem responsabilidades, as jogadoras seguem cercadas por incertezas sobre os próximos passos.

A voz da técnica e a presença dos apoiadores

Marziyeh Jafari, técnica da seleção feminina do Irã, declarou em coletiva que deseja voltar ao país e reencontrar a família, afirmando que a equipe está ansiosa pelo retorno. Como líder técnica do grupo, sua fala mistura preocupação esportiva e pessoal, em um cenário que extrapola o campo. Do lado de fora dos hotéis, apoiadores iranianos se mantiveram vigilantes, pedindo que as autoridades locais “separem as jogadoras de membros do regime” e que garantam entrevistas e acolhimento seguro. A pressão popular e diplomática aponta para uma solução que preserve a integridade física e mental das atletas.

O placar final e a eliminação esportiva ficaram em segundo plano diante dos riscos humanos que vieram à tona. As demandas por acesso a redes de apoio culturalmente apropriadas e por transparência no tratamento das jogadoras serão determinantes nas próximas horas. A Copa da Ásia, que deveria ser celebração do futebol feminino na Oceania, virou cenário de um impasse que mobiliza autoridades, ex-jogadores e movimentos de direitos humanos.

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