
A Argentina, atual campeã do mundo, chega ao ciclo final antes da próxima Copa cercada por instabilidade. O que deveria ser um período de consolidação virou questionamentos públicos, tensão institucional e pressão crescente da torcida. As recentes crises extrapolam o gramado e atingem a confiança do grupo. O ambiente, nitidamente, virou pauta tanto para dirigentes quanto para jogadores.
Nessa terça-feira (31), após a vitória por 5 a 1 sobre a Zâmbia, o clima ficou ainda mais carregado. Um torcedor interrompeu a coletiva do técnico Lionel Scaloni (técnico da seleção argentina), reclamando da qualidade dos amistosos escolhidos. Paralelamente, surgiram novas dúvidas sobre Lionel Messi (atacante do Inter Miami), que chegou a 116 gols pela seleção, e isso só aumentou a sensação de crise. A combinação de episódios virou combustível para especulações públicas.
Scaloni evitou, nos últimos dias, garantir a presença do camisa 10 na Copa, medida que provocou repercussão imediata no país. A cautela do treinador alimentou conversas sobre o futuro do principal jogador da geração campeã em 2022. Entre torcedores e analistas, a incerteza virou tema central das discussões. No vestiário, a reticência técnica se mistura à cobrança externa.
Pedido de união
Em meio ao cenário conturbado, Rodrigo De Paul (volante do Atlético de Madrid) tentou reduzir a tensão e pediu foco no futebol. Em entrevista concedida na Argentina, De Paul reforçou que o grupo não deve se envolver em disputas externas e pediu que a avaliação seja pelo desempenho em campo. “Nós viemos para jogar futebol. Gosto que nos julguem pelo que fazemos dentro de campo”, afirmou o volante. A mensagem busca resgatar a concentração do elenco antes da competição maior.
O meio-campista cobrou, ainda, unidade nacional para a defesa do título mundial. Segundo De Paul, espalhar polêmica neste momento prejudica quem veste a camisa e quem torce pela seleção. Ele pediu que as pessoas entendam o papel dos jogadores e evitem divisões que fragilizem o grupo. A convocação por união ganha peso diante das próximas etapas de preparação.
Dentro de campo, a atuação recente não convenceu completamente a comissão técnica. Após a vitória apertada sobre a Mauritânia, Emiliano “Dibu” Martínez (goleiro do Aston Villa) foi crítico ao desempenho do time. “Para ser sincero, foi bem fraco. Foi uma das piores partidas que já fizemos em amistosos”, disse o goleiro, citando falta de intensidade e velocidade. As declarações aumentaram o clima de cobrança interna e acenderam alertas para ajustes táticos.
AFA investigada
Fora das quatro linhas, a crise institucional agrava o cenário: a Associação do Futebol Argentino (AFA) enfrenta investigações judiciais que atingem dirigentes de alto escalão, entre eles o presidente Claudio Tapia. As suspeitas envolvem irregularidades no recolhimento de impostos e contribuições sociais, com alegações de retenções indevidas que poderiam alcançar valores bilionários em pesos argentinos. Como consequência, houve determinação judicial de bloqueio de bens e convocações para depoimentos. O caso abriu uma frente jurídica que complica a rotina administrativa do futebol local.
Paralisação e impacto institucional
Em reação ao processo, a AFA decidiu interromper competições nacionais por alguns dias, medida aprovada pela maioria dos clubes como forma de protesto; apenas o Estudiantes votou contra a paralisação. A entidade nega irregularidades e atribui as ações a um cenário de pressão política, num embate que também envolve propostas do governo para transformar clubes em sociedades esportivas. A disputa política entre entes públicos e dirigentes coloca em xeque a estabilidade da gestão do futebol argentino. Para além do debate jurídico, a paralisação gera impacto direto na preparação dos clubes e atletas.
Além das acusações fiscais, há outra frente de investigação sobre possíveis operações financeiras suspeitas, que já motivaram buscas e apreensões. O acúmulo de problemas institucionais preocupa pela proximidade da Copa: com dúvidas sobre Messi, críticas ao desempenho e desgaste da AFA, a seleção entra numa fase decisiva cercada por incertezas. Resta à comissão técnica e aos jogadores a tarefa de blindar o trabalho dentro de campo e manter o foco na preparação para o torneio. O tempo até a disputa é curto, e a Argentina precisa encontrar estabilidade rapidamente.



