Zaire na Copa de 1974: pioneirismo africano, goleadas e o episódio de Ilunga Mwepu

RD Congo já disputou Copa como Zaire e viveu campanha marcante em 1974 | CNN Brasil
Imagem: Divulgação / Reprodução

A República Democrática do Congo nunca disputou uma Copa do Mundo com o nome atual, mas já esteve presente no torneio sob a antiga denominação de Zaire. A participação na Copa do Mundo de 1974 entrou para a história por reunir pioneirismo africano, resultados negativos e bastidores conturbados. Na Alemanha, aquela seleção acabou virando símbolo de uma África subsaariana que começava a chegar em escala mundial, mas também carregou a dura realidade política e administrativa do país. O saldo esportivo foi duro: três derrotas, zero gols marcados e 14 sofridos, números que acompanharam a imagem da campanha por décadas.

Primeira da África subsaariana

Na época, o país era governado por Mobutu Sese Seko, e a vaga no Mundial veio com o título da Copa Africana de Nações de 1974, quando o torneio servia como classificatório direto. O feito teve peso histórico: o Zaire se tornou a primeira seleção da África subsaariana a disputar uma Copa do Mundo, abrindo caminho para outras equipes do continente nos anos seguintes. Para jogadores e torcedores, foi um passo gigantesco em um cenário internacional até então dominado por europeus e sul-americanos. A presença naquele Mundial teve repercussões no desenvolvimento do futebol local, apesar das dificuldades estruturais enfrentadas pela delegação.

Grupo difícil e campanha sem pontos

O sorteio colocou os africanos em um grupo complicado, ao lado da Escócia, da Iugoslávia e do Brasil. Dentro de campo, a diferença técnica e de experiência ficou evidente: o Zaire perdeu os três jogos, não marcou gols e sofreu 14, terminando na última posição do grupo. A sequência incluiu derrota na estreia para a Escócia, uma histórica goleada por 9 a 0 para a Iugoslávia e o revés por 3 a 0 diante do Brasil, resultados que tornaram a passagem pela Alemanha um pesadelo estatístico. Esses placares entraram para a lista das maiores goleadas da história das Copas e marcaram a narrativa sobre o torneio para jornais e torcedores ao redor do mundo.

Episódios que marcaram o Mundial

A participação também ficou marcada por episódios curiosos e simbólicos, sendo o mais lembrado o lance contra o Brasil em que o defensor Ilunga Mwepu (zagueiro, aposentado) saiu da barreira e chutou a bola antes da cobrança de falta de Rivelino (meia, aposentado). Durante anos, o lance foi interpretado como desconhecimento das regras, mas mais tarde o próprio Ilunga explicou que se tratava de um protesto em meio ao caos vivido pela delegação. O contexto político e administrativo pesou: relatos indicam problemas com premiações não pagas e pressão do regime de Mobutu após a goleada sofrida, afetando diretamente o ambiente da equipe durante o torneio. Esses bastidores ajudaram a moldar a lembrança amarga, mesmo diante do pioneirismo histórico.

Entre o pioneirismo e a lembrança amarga

Mesmo com a campanha negativa, o Zaire deixou um legado relevante: a presença no Mundial ajudou a consolidar o crescimento do futebol africano e abriu portas para futuras participações do continente. Décadas depois, a República Democrática do Congo tenta voltar à Copa do Mundo com outra realidade e ambições renovadas. Para 2026, uma partida separa o país do Mundial: basta vencer o ganhador de Jamaica x Nova Caledônia para carimbar a vaga. A história de 1974 segue viva nas lembranças, como lição de resistência e sinal de que o futebol pode transcender adversidades políticas e econômicas.

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