Música da Copa não repete hinos geracionais como ‘Waka Waka’ e ‘La Copa de la Vida’

Torcida em estádio cantando com bandeiras e vibração
Imagem: Divulgação / Reprodução

A música da Copa não vem conseguindo, nos últimos torneios, criar um hino geracional do tamanho de La Copa de la Vida (Ricky Martin, 1998) ou Waka Waka (Shakira, 2010), avalia o jornalista e criador de conteúdo sobre música Cristóvão Vieira.

O que aconteceu? Segundo Cristóvão, além da forma como consumimos música hoje, falta às produções recente uma ligação clara com a identidade do futebol — aquele tempero que vira refrão de estádio, propaganda e viral nas ruas.

Investimento e estratégia: volume versus alma

A Fifa ampliou o investimento em música e entretenimento, trazendo nomes como Anitta, Tyla e Daddy Yankee para projetos oficiais, e lançando faixas diversas para acompanhar o torneio. Ainda assim, poucas conseguiram atravessar o calendário e se incorporar à memória coletiva.

Em vez de depender de uma única canção, a entidade passou a trabalhar com várias faixas e artistas. Uma dessas apostas recentes foi “Dai Dai”, que transitou entre conteúdos oficiais e produtos comerciais da Copa. A mudança de estratégia gerou presença, mas não obrigatoriamente impacto cultural.

Quando a arquibancada escolhe a música

Historicamente, a arquibancada muitas vezes decide. Hinos ou músicas não oficiais viram símbolos porque o futebol cria seus próprios rituais — cânticos, baterias, adaptações de refrões que viram marca registrada de torcidas.

O fenômeno não é apenas brasileiro, mas aqui ganha força por causa da nossa tradição rítmica: sambas, marchinhas e batidas que nascem nas ruas e chegam ao estádio com uma energia que grava na memória coletiva.

Um exemplo citado é Love Generation (Bob Sinclar), que ficou associado ao Mundial de 2006 sem ser o tema oficial. A lição é clara: autenticidade e identificação local pesam mais que a produção global.

CBF e a tentativa de domesticar o hino

No Brasil, a CBF lançou Bate no Peito reunindo artistas de alcance comercial para tentar criar uma trilha ligada à Seleção. Para Cristóvão Vieira, porém, falta transformar esse produto planejado em manifestação espontânea do torcedor — algo que só se conquista ao escutar o público e respeitar ritmos e referências locais.

“Não adianta fazer algo que soe artificial, porque o público não compra”, afirmou. A crítica é direta: quantidade de lançamentos não substitui qualidade e alma.

Contexto e impacto cultural

Comparando as décadas, La Copa de la Vida e Waka Waka ganharam status por combinar produção pop com elementos culturais reconhecíveis — latinidade no caso do Ricky Martin; ritmos africanos e latinos no caso de Shakira — e por chegar ao público fora do calendário estritamente esportivo.

Hoje, plataformas como TikTok fragmentam o consumo, mas também oferecem oportunidade de viralização. O desafio é achar uma música que funcione simultaneamente como produto global e como bandeira de arquibancada; não é tarefa simples, e passa por entender como torcedores se expressam dentro dos estádios e nas ruas.

Brasil exporta sua forma de torcer

Ironia: enquanto entidades globais buscam experiências universais, o estilo brasileiro de torcer começa a atravessar fronteiras. Cristóvão lembra quando torcidas estrangeiras adotaram ritmos brasileiros — fenômeno que mostra o potencial exportador da nossa cultura de arquibancada.

Se a próxima música da Copa quiser mesmo tocar corações, terá de ser menos campanha de marketing e mais algo que possa ser cantado em coro no Maracanã, em São Januário, no Nilton Santos — e que chegue a virar rotina na voz do torcedor.

O mercado musical e os organizadores aprenderam muito, mas ainda faltam faísca e identidade para transformar trilhas em hinos geracionais.

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